Esta vida é uma treta e nós somos menos que uma treta. Os grandes desaparecem, aparentemente sem justiça, sem critério ou justificação.
Ontem, quem nos deu a conversa da treta, não conseguiu vencer o "bicho" sem que o "bicho" o vencesse a ele mas quero acreditar que se riu e continua a rir connosco.
Admirei e admiro o Homem que enfrentou uma sentença de morte com um bom humor contagiante e ainda não consegui verter uma lágrima, mesmo sentindo uma enorme tristeza, porque acredito que sorrir é a melhor homenagem que lhe posso fazer... vale o que vale, não me conhecia, não sabia da minha existência mas gostava de uma dia enfrentar a mudança final com a força e coragem que senti nele.
Sem voz
Estava eu no carro com a minha princesa, parado junto do Colombo, quando fui abordado por um rapaz, pedinte e, muito possivelmente, "agarrado", talvez à heroína, como facilmente se detectava pelo estado lastimável dos dentes ou do que restava deles. De notar que o moço estava vestido com uma camisola do equipamento alternativo do benfica (aquele cor-de-rosinha!) e, portanto, nem tudo lhe corre mal na vida.
Iniciou a conversa com "Boa tarde. Em primeiro lugar quero agradecer-lhe estar a falar comigo porque estou ali e ninguém olha sequer para mim.". Eu, armado em engraçado, respondi prontamente com um "Isso é da camisola..." entre um sorriso que imaginei fosse impedir qualquer tentativa de agressão por parte do pedinte adepto do benfica. Surpreso pela resposta atirou um "Como?!" e o gelo quebrou-se então quando repeti a piadola, já sem o mesmo efeito, ele sorriu e disse "Eu tou a rir mas...", "não tenho vontade nenhuma..." completei eu só para mim.
Seguiu a sua história, talvez muito real mas provavelmente muito bem estudada, "Estou desempregado... por causa de um...", olhou para a minha princesa e fez uma pausa, "ia falar mal...mas... por causa de um patrão que não descontava para a segurança social estou sem nada, na rua...não sou drogado, roubar nem pensar, o que lhe peço é que me dê qualquer coisa ou que venha comigo ali dentro comprar umas latas de atum e pão para eu comer."
A verdade é que me tinha convencido à primeira frase, a verdade é que as pessoas não ouvem sequer, tudo o resto pode ser a maior das mentiras e depois?! É dinheiro para a droga?! E depois?! A verdade é que cada um de nós só se preocupa com o seu umbigo...
Infelizmente não tinha a minha carteira comigo, não tinha sequer moedas por perto e foi isso mesmo que lhe disse com a promessa de não me ir embora antes de lhe dar qualquer coisa.
Antes de sair ele estava longe, não me via, deu-se conta e eu, já fora do estacionamento recuei para lhe dar as poucas moedas que tinha. Agradeceu-me com um "Obrigado por não se esquecer de mim e desculpe a camisola!"
Iniciou a conversa com "Boa tarde. Em primeiro lugar quero agradecer-lhe estar a falar comigo porque estou ali e ninguém olha sequer para mim.". Eu, armado em engraçado, respondi prontamente com um "Isso é da camisola..." entre um sorriso que imaginei fosse impedir qualquer tentativa de agressão por parte do pedinte adepto do benfica. Surpreso pela resposta atirou um "Como?!" e o gelo quebrou-se então quando repeti a piadola, já sem o mesmo efeito, ele sorriu e disse "Eu tou a rir mas...", "não tenho vontade nenhuma..." completei eu só para mim.
Seguiu a sua história, talvez muito real mas provavelmente muito bem estudada, "Estou desempregado... por causa de um...", olhou para a minha princesa e fez uma pausa, "ia falar mal...mas... por causa de um patrão que não descontava para a segurança social estou sem nada, na rua...não sou drogado, roubar nem pensar, o que lhe peço é que me dê qualquer coisa ou que venha comigo ali dentro comprar umas latas de atum e pão para eu comer."
A verdade é que me tinha convencido à primeira frase, a verdade é que as pessoas não ouvem sequer, tudo o resto pode ser a maior das mentiras e depois?! É dinheiro para a droga?! E depois?! A verdade é que cada um de nós só se preocupa com o seu umbigo...
Infelizmente não tinha a minha carteira comigo, não tinha sequer moedas por perto e foi isso mesmo que lhe disse com a promessa de não me ir embora antes de lhe dar qualquer coisa.
Antes de sair ele estava longe, não me via, deu-se conta e eu, já fora do estacionamento recuei para lhe dar as poucas moedas que tinha. Agradeceu-me com um "Obrigado por não se esquecer de mim e desculpe a camisola!"
Paradoxo
Há muito que me debato sobre uma questão paradoxal de complexidade elevada mas completamente ignorada pela comunidade internacional de filósofos e pensadores. Tomei a liberdade de baptizar a questão de Paradoxo do Lugar de Deficientes, designação que, como poderão analisar no decorrer deste post, é absolutamente pertinente.
Vejamos... segundo a lei os lugares de deficientes estão reservados, por incrível que pareça, a portadores de deficiência. Assim quando um indivíduo aparentemente desprovido de qualquer deficiência estaciona num destes lugares está a cometer uma infracção, a abusar e a faltar ao respeito a pessoas que realmente têm direito do seu usufruto. No entanto, podemos assumir que esse infractor deverá ser portador de alguma anomalia psíquica que o impede de ter bom senso e educação o que o torna, à luz do que se assume ser deficiência, portador da dita e por consequência, passa a ter direito de estacionar no lugar amarelinho... mas se é assim, o facto que causou a provisória deficiência deixa de ser relevante, ou seja, estacionou por direito próprio num lugar de deficientes o que o torna, de acordo com o processo de construção desta análise, normal...
Posso prosseguir nesta divagação mas não faz qualquer sentido percorrer ciclicamente este paradoxo, não tem solução, deixo-vos entregues à cascata de pensamentos que por certo este post vos induziu!
Vejamos... segundo a lei os lugares de deficientes estão reservados, por incrível que pareça, a portadores de deficiência. Assim quando um indivíduo aparentemente desprovido de qualquer deficiência estaciona num destes lugares está a cometer uma infracção, a abusar e a faltar ao respeito a pessoas que realmente têm direito do seu usufruto. No entanto, podemos assumir que esse infractor deverá ser portador de alguma anomalia psíquica que o impede de ter bom senso e educação o que o torna, à luz do que se assume ser deficiência, portador da dita e por consequência, passa a ter direito de estacionar no lugar amarelinho... mas se é assim, o facto que causou a provisória deficiência deixa de ser relevante, ou seja, estacionou por direito próprio num lugar de deficientes o que o torna, de acordo com o processo de construção desta análise, normal...
Posso prosseguir nesta divagação mas não faz qualquer sentido percorrer ciclicamente este paradoxo, não tem solução, deixo-vos entregues à cascata de pensamentos que por certo este post vos induziu!
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